terça-feira, 31 de março de 2009


A Menina que tinha medo


Era medrosa. Tinha medo de monstros invisíveis debaixo da cama. Talvez tubarões com suas grandes barbatanas.

Gritava sua mãe, sempre que podia.

Tres letras e pronto! Sua alforria.

Ela aprendera que no medo do escuro ou "bicho papão", deveria gritar bem alto, até ficar rouca: " -não tenho medo!"

Gritava sempre, sempre e sempre. E o bicho papão ia embora.

Agora era gente crescida. Moça valente com medo dos seus próprios sussurros.

Joelhos ralados, mãos asperas...

Caminhou por aí, tentou tantas coisas, queria descobrir!

Descobrir a vida é coragem, dá medo encarar a viagem, mas tem que ir!

Sentiu medo do incerto, sentiu medo de não ter afeto.

Feriu-se de novo e aprendeu com a vida.

Não se pede abrigo ao coração, nem esmola, nem compaixão.

Coração se conquista, ramifica.

Nasce carinho, nasce amizade, companheirismo.

Se não vingou, não tinha que ser.

Mas ser rejeitada a fazia sofrer!

Eis o monstro ali de novo, mais velho, ardiloso com o tempo...

buscou força em suas raízes, gritou!

De monstro feio, só rajada de vento...
Flávia Frickmann


"Não tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite." Clarice Lispector - A HORA DA ESTRELA

domingo, 29 de março de 2009

Fechando as portas

Duas palavras vem batendo os pinos dentro da minha mente ultimamente.
Desapego e comprometimento.
Logo eu...Taurina...desapegar não é fácil! Vou te falar...
Essa é a minha última semana na Ancine e ao mesmo tempo em que estou nervosa, estou feliz.
Nervosa porque deixo pra trás cinco anos e nove meses de trabalho, amizade, carinho, lembranças, experiência, amadurecimento como pessoa e como profissional.
Feliz porque vou me desintoxicar. Essa é a palavra.
Sinto-me impregnada de manias ancinéticas, de toxicidades...
Esse é o grande desapego. Necessário...
Comprometimento é a segunda palavra.
Tenho outros planos. Quero estudar, quero escrever, quero mudar.
Esse é o comprometimento comigo. Não há ninguém por trás desses planos senão eu mesma.
Até porque não há mais ninguém a me enxergar, a me conhecer e a se importar com o que realmente conta pra mim.
Conto comigo e como a Dolly em “Procurando Nemo” devo nadar e nadar e nadar nesse mar de apostas que coloquei na mesa.
Vai dar certo.
Eu sei, eu sei.
Há pessoas que me chamam de louca, impulsiva, irresponsável. Talvez eu seja louca, talvez sim. Impulsiva e irresponsável, não.
Tive uma coragem pensada para dizer não a humilhações, pessoas infantis, problemáticas e incoerentes. Tive coragem para dizer não a preconceitos idiotas, a soberba, ao convencimento de que inteligência e capacidade são determinadas por categorias de profissionais.
Tive coragem para virar as costas para a ingratidão.
De tudo que fiz ali, naquele setor em que fui a segunda funcionária, antes mesmo dele ser legalizado, dele existir, o que restou foi a minha memória e o respeito que eu dediquei ao trabalho.
Mas nesse mar de memórias, o meu trabalho é peixe morto, largado na areia.
Os abutres voam em cima, querem extrair o que sobrou. Se eu deixar, sobrará a espinha. Da espinha, o lixo. Serei então o nada.
Tive coragem para assumir o que quero fazer, o que quero ser. Ninguém mais fará isso por mim.
Tive coragem. Apenas.
Depois da coragem vem o medo.
Mas antes do medo, vem a fé e eu acredito.
Então é isso, sexta, dia 03, fecho as portas, guardo as chaves no bolso e sigo para navegar no meu precioso mar de apostas.
Aposto que dará certo!!!!

“O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo tam­bém o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me mul­tiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a idéia de imobilidade eterna. Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em dian­te o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espan­to-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje.” Clarice Lispector – Um Sopro de Vida

sábado, 7 de março de 2009

É chegado o tempo de trocar as asas...Dizem por aí que esse é o tempo...Tem um relógio no meu coração.Ouço um tic tac que clama aqui dentro.Daqui de cima, conto as estrelas, e o brilho delas me contagia...Minhas asas ganharão vida! Virão comigo os sonhos, a esperança e a alegria...Deixo então pra trás as brigas, a maldade, a frustração e todas as coisas ruins que vem e que vão...Que eu possa também pisar os pés no chão, lutar, correr atrás do vento,Fazer acontecer a minha vida, tornar real o meu pensamento...Que Deus nos abencoe, a nós e nossa família,Ilumine o nosso viver, o nosso ser, a nossa trilha.

No início do ano, essa foi a minha mensagem...
trocar as asas...
Desejei muito isso, tanto, tanto, que a urgência gritava como um filho querendo vir ao mundo...
Para isso, tive que vencer o medo...
Medo de não ser a hora, medo de não conseguir dar outros voos...
Venci. Venci esse medo. Engoli a coragem com a sede de quem acredita que vale a pena tentar sempre, enquanto existir vida pulsando nas veias...
E eu sou assim. Eu vivo. Eu acredito que sempre é tempo de crescer.
Vai dar certo. Vou voar por aí. Vou amadurecer mais, vou aprender mais, vou mudar o que precisa ser mudado.
A Ancine que me acolheu de longe não é a que se despede de mim.
Ela cresceu, ela mudou, ela acolheu outros também.
Muitos irão comigo aonde quer que eu vá. Ultrapassaram a jornada diária e passaram a ser companheiros da jornada da vida...
Outros eu deixo ali, parados na lama da arrogância, do arrependimento, da soberba.
Ainda acredito neles, sabe?
Afinal eu acredito na vida e enquanto houver vida, os seres humanos serão capazes de se reciclar...de trocar as asas...
Beijos e beijos,